Qual o cheiro do confinamento?

Aqui na França, já fazem 12 dias que o país parou: nossas voltinhas no quarteirão só são permitidas durante 20 minutos, em um raio de 1km de casa, mediante procuração escrita e assinada no mesmo dia; no supermercado a fila é militarmente arrumada, deixando uma distância entre as pessoas de no minimo 1 metro indicado com a ajuda de faixas no chão; o caminho para o trabalho (para os que não têm a oportunidade de fazer home office) é deserto e solitário, mas a distância com os colegas na hora do almoço acabou criando, ironicamente, uma proximidade, onde mesmo estranhos acabam conversando entre si gritando de longe.

Mas sempre haverão coisas boas para se aprender em tais momentos: eu mesma só comecei a trabalhar por home office hoje, pois infelizmente a industria da perfumaria é muito ligada à ideia de “sem presença física, não há trabalho efetivo”. Uma ideia completamente sem fundamentos e que está sendo desmentida a cada dia. Torcemos para que o mundo aproveite o confinamento para refletir e mudar…

…e também para sentir! O perfume é uma presença na ausência e, felizmente, nossa memória é inesgotável e sempre caberão novos cheiros nela. Mesmo se o COVID-19 pode criar uma anosmia (ausência de olfato) temporária, ainda haverá a memória dos cheiros de nossas vidas. E como estamos todos confinados eu aproveito para perguntar para vocês: qual é o cheiro do confinamento? Acho que muitos responderão “o cheiro da minha própria casa”. E o que faz o cheiro da sua casa, já parou pra pensar?

Por isso hoje eu decidi falar um pouco sobre dois perfumes que, para mim, fazem o cheiro da minha casa, quer dizer, de uma casa onde eu vivi durante 17 anos: a casa dos meus pais. E, obviamente, esse cheiro que eu levo em mente é o cheiro do perfume da minha mãe e do meu pai, dois grandes fãs de perfumaria e que, sem querer, acabaram me formando um pouco sobre a minha profissão.

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Azzaro pour homme: e o perfume do meu pai é um grande clássico da perfumaria mundial criado em 1978 para o grupo Clarins que detinha os direitos da marca Azzaro (atualmente a marca Azzaro é propriedade do grupo L’Oreal). Aparentemente, esse perfume está entre os mais complexos que existem com uma fórmula com mais de 100 matérias-primas!

Notas de saída:  manjericão, sálvia, alecrim, menta;
Notas de corpo: aldeídos (efeito sabão; creme para barbear), acorde maçã verde;
Notas de fundo: vetiver, gerânio, musgo de carvalho;

Acqua fresca

Acqua fresca (original): e o perfume da minha mãe não fica para trás! Criado em 1979, apenas um ano mais tarde que o Azzaro pour homme, Acqua Fresca foi a primeira fragrância criada para o grupo O Boticário. E a criação foi certeira: a fragrância esteve entre os perfumes mais vendidos do mundo e ainda circula nos quatro cantos do país.

Notas de saída:  alecrim, terpineol (nota de folha verde);
Notas de corpo: aldeídos, salicilato de benzila (nota floral com cheiro de protetor solar);
Notas de fundo: patchouli, almíscar  (musc branco), baunilha;

E vocês, qual o cheiro do confinamento de cada um de vocês que acompanham o Perfumundo?

Comentem!! Afinal, agora ninguém mais tem a desculpa de não ter tempo para comentar e responder!

Perfume vegano: o que o mercado tem a oferecer?

Cada vez mais a natureza está no centro das discussões. Manifestações em prol do clima e leis proibindo o descarte excessivo de plásticos no meio ambiente têm sido adotadas no mundo inteiro afim de proteger a única razão pela qual ainda estamos aqui. Afinal, pode parecer bobeira, mas sem rio não há água, sem árvores não há alimento e por aí vai. No mercado da beleza, outras alternativas estão aparecendo para atender aos pedidos da nova geração de clientes atentivos que está nascendo pouco a pouco, e uma delas são os perfumes veganos.

Eu, grande amante da picanha ao ponto, realmente não sabia grande coisa sobre esse tema, mas pesquisei cuidadosamente antes de escrever aqui, pois de besteiras o mundo já está repleto!

Segundo a “The Vegan Society”, um vegano é alguém que “busca excluir, na medida do possível, todas as formas de exploração e de crueldade contra os animais”, sendo esses animais irracionais ou não, ou seja, o veganismo é mais um movimento do que apenas um simples método alimentar. Em termos de alimentos, veganos são vegetarianos estritos, o que significa que todo tipo de produto de origem animal (como carne) ou mesmo derivado de origem animal (ovos e iogurtes, por exemplo) são banidos de suas dietas. Seguindo essa linha, na área da beleza não poderia ser diferente: todo produto cuja origem é animal será banido.

Eu decidi então procurar algumas marcas que respeitam as condições veganas, o que também é uma forma de se manter atualizada sobre o mercado. E é importante lembrar que as grandes empresas de cosméticos já não testam mais nada em animais desde muito tempo atrás! A legislação europeia é clara sobre o assunto e proíbe explicitamente qualquer tipo de teste com animais.

1.The Body Shop
The Body Shop é uma marca inglesa criada na década de 70 e uma das pioneiras em termos de consciência ecológica. Desde o princípio, o objetivo da empresa era vender produtos éticos, sem testes em animais e naturais. The Body Shop foi por anos uma das marcas da L’Oréal, mas a Natura decidiu comprar essa marca e é atualmente a responsável no mundo inteiro pelas franquias.

https://www.thebodyshop.com.br/busca?q=vegan

2.Lolita Lempicka
Lolita Lempicka é também o nome artístico da fundadora desta marca francesa de perfumes e moda. Ela mesmo sendo vegana, a criadora decidiu reformular todos os perfumes da marca para torná-los veganos e, quase, 100% orgânicos.

https://www.ozcosmetics.com.br/Lolita-Lempicka-Le-Premier-Parfum

3.O Boticário
E o Brasil não ficou para trás nessa modernização de conceitos! A ideia de escrever esse artigo surgiu justamente durante uma visita minha ao site do Boticário. Entre as novidades, está uma página inteira dedica a todos os produtos da marca que são veganos! E eles não são poucos! Vale a pena conferir.

https://www.boticario.com.br/produtos-veganos

O mundo evolui, os conceitos mudam e novas formas de expressão surgem. Muito mais do que apenas estar na moda e surfar na onda comercial que cada novo modelo traz consigo , é preciso respeitar e entender as revindicações por trás de cada grupo para se adaptar ao futuro e melhorar o presente, independente de quais sejam nossos próprios ideais.

Body Mist Indian Night Jasmine
Um dos perfumes veganos vendidos nas lojas do The Body Shop

Viagem olfativa à Itália – Parte 2

Espero que, desde o último post, vocês tenham descoberto qual era a flor da última foto, flor cuja fruta nós adoramos no Brasil. E acertou quem disse maracujá! Além do gosto maravilhoso, o maracujá também tem cheiro bom! A flor não é das mais odorantes, então é preciso ficar atento às suas maravilhosas cores se vocês quiserem encontrá-la durante uma trilha.

E continuando essa viagem às Cinque Terre na Itália, eu também vi por lá, face ao mar, figueiras. Infelizmente, ainda estamos em junho e o mês de recolta dos figos é agosto, então não pude experimentar o fruto. De qualquer maneira, as folhas já exalavam esse cheiro cremoso que lembra leite em pó com uma nota verde seca, e, a cada passo, eu encontrava as figueiras seguindo apenas o cheiro como bom cão farejador que me tornei.

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Figueira em fase de crescimento; as folhas têm uma aparência fácil de ser reconhecida.

E por falar em figo, quem acompanha o blog e o nosso instagram (@perfumundo.brasil) já percebeu que o acorde de figo é importante para a perfumaria contemporânea. Eu já fiz uma resenha sobre o Hypnotic Poison (que contém um acorde que fica no meio do caminho entre um figo e um coco) e comentei no instagram sobre o Philosykos da Diptyque, o primeiro perfume que acrescentou esse acorde de figo no mercado de fragrâncias.

Durante uma trilha sofrida de 2h30, eu tive a oportunidade de ver a cidade de Corniglia do alto da montanha e de sentir a flor de “genêt” [fonética: Gnê]. Fui obrigada a deixar o nome francês porque, de acordo com minhas pesquisas, essa flor não existe na América do sul. Ela tem um cheiro de cumarina, matéria-prima encontrada na lavanda, na fava Tonka e no feno. A fava Tonka é nativa da América do Sul e é plantada pelas empresas de perfumaria no Brasil, mas aqui na Europa, essa pepita de ouro é mais conhecida do que em seu próprio berço! Esse cheiro de cumarina é açucarado e lembra o cheiro de amendoim torrado e quase todos os perfumes masculinos têm cumarina em sua composição em nota de fundo. O genêt é usado sob a forma de um Absolue (extrato alcoólico) em perfumaria, misturando um cheiro floral ao fundo de cumarina.

Genêt
Genêt, a flor sem tradução.

E a última planta dessa viagem estava no chão e quase passou despercebida. Ela tem a aparência de um erva daninha mas, uma vez embaixo do meu nariz, a história foi outra. O nome dessa plantinha é anis, mas no Brasil eu sempre conheci pelo nome de erva-doce. Ela é frequentemente usada na cozinha, principalmente na preparação de chás, e é o ingrediente principal da bebida típica do sul da França, o pastis. O anis tem um cheiro doce mas sem ter um efeito abaunilhado, uma nota floral anestesiante (mesma sensação que o cravo) e super medicinal do tipo cânfora.

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Erva-doce ou anis.

E assim termina-se essa viagem ao paraíso olfativo italiano.  Mas o verão acabou de começar na Europa e outras viagens cheias de cheiros bons virão! Até lá, o Perfumundo continua porque a perfumaria é um universo de infinitas possibilidades.

Perfume e alergias: a verdade coça

Quando eu nasci, nada me afetava. Não havia pólen nem substância química que me atingisse; eu me sentia invencível. Mas mesmo Clark Kent um dia encontra a Kriptonita, e aos 17 anos eu comecei a encontrar várias. Coceira atrás de coceira, olhos vermelhos, nariz entupido, garganta inchada e falta de ar, todos os sintomas com os quais um alérgico vive todos os dias. Graças ao químicos (aqueles que conseguiram ingressar em uma faculdade pública brasileira antes da extinção das mesmas…), nós vamos sobrevivendo com uma caixa de anti-histamínico.

Mas e os perfumes? Eles realmente causam alergia? Entre realidade e lenda urbana, às vezes a verdade dói…e coça.

Na Europa, a regulamentação de produtos cosméticos (perfumes inclusos) é rígida. Uma lista de 26 substâncias alérgicas aponta os nomes que devem figurar no rótulo do produto se a fórmula do perfume as contém. Um bom exemplo é o da indústria alimentícia. Se você decide vender tapioca com banana, e que o governo brasileiro considera banana como sendo uma substância alérgica, você será obrigado a escrever “banana” no rótulo do seu produto na parte “composição”. Com um perfume é a mesma coisa.

 

Uma nomenclatura internacional chamada INCI (International Nomenclature of Cosmetics Ingredients) é utilizada no mundo inteiro afim de facilitar o reconhecimento das substâncias químicas em qualquer canto do planeta. Muitas substâncias possuem vários nomes, o álcool sendo o melhor exemplo. Também chamado de etanol, para os íntimos, o álcool é conhecido como etan-1-ol. O INCI veio então resolver esse problema e colocar ordem no barraco.

E então um perfume pode causar alergia? E a resposta é sim, tecnicamente um perfume pode ser a causa de uma alergia. Mas é importante saber que nós somos alérgicos a CERTAS substâncias e não a uma fórmula inteira de perfume. Eu mesma, trabalhando em perfumaria, já percebi que várias substâncias me provocam uma alergia. No entanto, eu não abandonaria meu trabalho querido por causa de uma urticária, do mesmo jeito que não falaria aos consumidores “nunca mais use um perfume pois ele provoca alergia”. Que seja em política ou na vida cotidiana, radicalismo não leva a lugar nenhum!

Em caso de alergia, troquem de perfume e fiquem atento aos rótulos e às substâncias que poderiam ser a causa dessa alergia. Lembrem-se de que o ar de São Paulo é 10 vezes mais perigoso e susceptível de causar uma alergia do que 10 litros de perfume…

Qualquer dúvida ou curiosidade, deixem seus comentários!

Cheiro no ar: Guerlain – Eau de cologne impériale

Sempre achei o mercado da perfumaria muito similar ao da música: Top 10 de vendas, lançamentos todos os meses, veículos de comunicação e propaganda performantes e artistas que colocam todas suas dores e amores em prol de uma obra de arte.
Perfumistas ou músicos, esses dois mundos, completamente diferentes a primeira vista, possuem muito em comum. Hoje eu contarei a história dos Rolling Stones da perfumaria, a marca Guerlain, que perfumou (e ainda perfuma) mais de 4 gerações de homens e mulheres ao redor do mundo.

Pierre François Pascal Guerlain. Eu demorei meses para decorar o nome desse homem antes de ir às provas de história da perfumaria. Figura emblemática da perfumaria e grande empreendedor, ele instala-se em Paris e abre sua primeira loja por volta de 1830. O sucesso aparece anos depois, quando imperadores do mundo inteiro começam a encomendar perfumes unicamente em sua loja.

Mas a marca Guerlain conhece seu ápice no ano de 1853, quando a imperatriz Eugênia, esposa de Napoleão III, pede a Guerlain que ele crie um perfume exclusivo para ela. Pierre François cria então Eau de Cologne Impériale, que durante um tempo não foi comercializado por falta de autorização de sua proprietária, mas anos depois ele entra em circulação e torna-se um “hit” da indústria da perfumaria que perdura até hoje nas prateleiras.

Eau de Cologne Impériale começa com notas de saída verdes frescas, como bergamota/limão/flor de laranjeira e continua com notas de corpo de sálvia e almíscar (musk). Como toda colônia, o perfume não é concentrado, então o cheiro não durará um dia inteiro. Mas de qualquer maneira, o prazer mora no fato de renovar o ato de se perfumar, então perfumem-se!

Nome: Eau de Cologne Impériale
Marca: Guerlain
Preço: 140 euros (França)
Onde comprar: Infelizmente o perfume não é vendido no Brasil, mas nada que a internet não resolva!
Site Web: https://www.guerlain.com/us/en-us/fragrance/unisex-fragrances/les-eaux/les-eaux-eau-de-cologne-imperiale-spray