Viagem olfativa à Itália – Parte 2

Espero que, desde o último post, vocês tenham descoberto qual era a flor da última foto, flor cuja fruta nós adoramos no Brasil. E acertou quem disse maracujá! Além do gosto maravilhoso, o maracujá também tem cheiro bom! A flor não é das mais odorantes, então é preciso ficar atento às suas maravilhosas cores se vocês quiserem encontrá-la durante uma trilha.

E continuando essa viagem às Cinque Terre na Itália, eu também vi por lá, face ao mar, figueiras. Infelizmente, ainda estamos em junho e o mês de recolta dos figos é agosto, então não pude experimentar o fruto. De qualquer maneira, as folhas já exalavam esse cheiro cremoso que lembra leite em pó com uma nota verde seca, e, a cada passo, eu encontrava as figueiras seguindo apenas o cheiro como bom cão farejador que me tornei.

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Figueira em fase de crescimento; as folhas têm uma aparência fácil de ser reconhecida.

E por falar em figo, quem acompanha o blog e o nosso instagram (@perfumundo.brasil) já percebeu que o acorde de figo é importante para a perfumaria contemporânea. Eu já fiz uma resenha sobre o Hypnotic Poison (que contém um acorde que fica no meio do caminho entre um figo e um coco) e comentei no instagram sobre o Philosykos da Diptyque, o primeiro perfume que acrescentou esse acorde de figo no mercado de fragrâncias.

Durante uma trilha sofrida de 2h30, eu tive a oportunidade de ver a cidade de Corniglia do alto da montanha e de sentir a flor de “genêt” [fonética: Gnê]. Fui obrigada a deixar o nome francês porque, de acordo com minhas pesquisas, essa flor não existe na América do sul. Ela tem um cheiro de cumarina, matéria-prima encontrada na lavanda, na fava Tonka e no feno. A fava Tonka é nativa da América do Sul e é plantada pelas empresas de perfumaria no Brasil, mas aqui na Europa, essa pepita de ouro é mais conhecida do que em seu próprio berço! Esse cheiro de cumarina é açucarado e lembra o cheiro de amendoim torrado e quase todos os perfumes masculinos têm cumarina em sua composição em nota de fundo. O genêt é usado sob a forma de um Absolue (extrato alcoólico) em perfumaria, misturando um cheiro floral ao fundo de cumarina.

Genêt
Genêt, a flor sem tradução.

E a última planta dessa viagem estava no chão e quase passou despercebida. Ela tem a aparência de um erva daninha mas, uma vez embaixo do meu nariz, a história foi outra. O nome dessa plantinha é anis, mas no Brasil eu sempre conheci pelo nome de erva-doce. Ela é frequentemente usada na cozinha, principalmente na preparação de chás, e é o ingrediente principal da bebida típica do sul da França, o pastis. O anis tem um cheiro doce mas sem ter um efeito abaunilhado, uma nota floral anestesiante (mesma sensação que o cravo) e super medicinal do tipo cânfora.

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Erva-doce ou anis.

E assim termina-se essa viagem ao paraíso olfativo italiano.  Mas o verão acabou de começar na Europa e outras viagens cheias de cheiros bons virão! Até lá, o Perfumundo continua porque a perfumaria é um universo de infinitas possibilidades.

Viagem olfativa à Itália – parte 1

E como tudo que é bom acaba um dia, aqui estou eu de volta à França depois desse final de semana no paraíso olfativo italiano. Então essa edição especial de hoje vai ser para contar um pouco dessa viagem ao país do limão.

Para os que não viram as fotos no instagram, eu viajei à região das “Cinque terre”. Cinque porque são cinco cidades costeiras da Riviera Italiana que viraram patrimônio mundial da Unesco em 1997: Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore são os nomes dessas cinco maravilhas. Que seja pelas cores das casas e da natureza, ou pelos cheiros de flor e fruta que invadem as ruas dessas cidades, a viagem vale extremamente a pena se vocês estiverem passando pela Itália. Mas atenção aos alérgicos ao esporte: todas as vilas são construídas na montanha, então haja pernas para subir as ladeiras dessa vida!

O primeiro cheiro que me invadiu foi o do jasmin. Planta não nativa do local, são os próprios moradores que rechearam seus jardins e muros com essa flor tão pequena mas tão odorante. Se eu tentasse decompor o cheiro do jasmin em vários outros mais simples (um trabalho contínuo em perfumaria e que ajuda a memorizar a construção de acordes), eu citaria o cheiro de banana madura, com o cheiro suculento do suco de pêssego e, no caso do jasmin das cinque terre, misturado ao frescor do limão. Vale a pena ressaltar que esse jasmin é o “étoilé”, o jasmin “falso”, que cresce no sul da França e na Itália, regiões de clima ameno.

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Jasmin “étoilé” e seu cheiro inesquecível

O segundo cheiro foi o da mexerica. Sou uma grande fã de frutas cítricas, então não serei imparcial: eu peguei uma folha da árvore e quebrei-a ao meio e fiquei surpresa com a beleza do cheiro que apareceu! Poucas são as plantas cuja folha é odorante e, em perfumaria, as folhas do mexeriqueiro são usadas pelos perfumistas em forma de óleo essencial conhecido pelo nome de Petit grain de mexerica. Um cheiro verde, de grama cortada, com a acidez e frescor do limão, uma nota de flor branca suave como o cheiro da flor de laranjeira e um efeito que lembra o cheiro de sabonete (efeito dos aldeídos).

mexerica
As mexericas crescem nas ruas da cidade de Levanto (cidade vizinha às cinque terre)

Eu eu termino com essa flor linda e cheirosa, que eu deixo vocês adivinharem o que é! Enquanto ela é flor, o seu cheiro é alaranjado, compacto, ácido, e lembra bastante o cheiro da madressilva (honeysuckle). Essa da foto é a espécie ornamental frequente na Europa, mas a prima dela, chamada Passiflora edulis, é originária do Brasil e todo mundo ama a fruta que nasce dessa flor, seja em forma de suco ou mesmo com um pouco de açúcar!

Passiflore
Qual o seu nome, oh bela flor?

E por enquanto é isso, e já é bastante! No próximo artigo vocês terão a continuação dessa viagem olfativa extraordinária. Ciao ragazzi!

moi
O cansaço me matou