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Mas afinal, o que é um perfume?

Desde o último post aqui do blog, meses e meses se passaram. Filmes foram lançados, políticos esfaqueados e direitos humanos perdidos…mas a vida continua e esse blog também!

Hoje vamos começar pelo básico, pois é na base que se encontra a resposta a tudo: afinal, o que é um perfume? A maioria das pessoas se perde entre todas as classificações que o mercado dá, muitas vezes, à mesma coisa.
Se eu tivesse que criar uma definição simples e eficaz, eu diria que um perfume é uma mistura de matérias-primas (de origem sintética ou natural) diluídas em uma determinada proporção de álcool e (nem sempre) água. É simples como um suco Tang: o pó é uma mistura de matérias-primas alimentares (aromas) que são diluídos na água pelo consumidor afim de obter um suco bem industrial, mas ainda assim um suco.

Eau de cologne, Eau de parfum, Extrait, desodorante Colônia…tudo é apenas uma história de diluição. E mesmo se você faltou a todas as aulas de química ou teve alergia a essa matéria, não tem problema!
Uma colônia tem uma concentração entre 2 e 5% em perfume, o que significa que em 100g de solução (ou seja, matérias-primas + álcool + água), entre 2g e 5g são uma mistura de matérias-primas de origem sintética ou natural. Em seguida essa quantidade será misturada ao álcool e à água e dar origem ao que chamamos um perfume.

Mas ultimamente um debate tem invadido o universo da perfumaria: sintético ou natural? Quais matérias-primas são os bandidos e os mocinhos atuais? Com a demanda pelo “natural” cada vez maior, perfumistas têm sido obrigados a abandonar a criatividade em detrimento do mercado. Mas isso é um outro tema para um outro post, até lá, continuem lendo e perfumando-se!

Qual o cheiro do confinamento?

Aqui na França, já fazem 12 dias que o país parou: nossas voltinhas no quarteirão só são permitidas durante 20 minutos, em um raio de 1km de casa, mediante procuração escrita e assinada no mesmo dia; no supermercado a fila é militarmente arrumada, deixando uma distância entre as pessoas de no minimo 1 metro indicado com a ajuda de faixas no chão; o caminho para o trabalho (para os que não têm a oportunidade de fazer home office) é deserto e solitário, mas a distância com os colegas na hora do almoço acabou criando, ironicamente, uma proximidade, onde mesmo estranhos acabam conversando entre si gritando de longe.

Mas sempre haverão coisas boas para se aprender em tais momentos: eu mesma só comecei a trabalhar por home office hoje, pois infelizmente a industria da perfumaria é muito ligada à ideia de “sem presença física, não há trabalho efetivo”. Uma ideia completamente sem fundamentos e que está sendo desmentida a cada dia. Torcemos para que o mundo aproveite o confinamento para refletir e mudar…

…e também para sentir! O perfume é uma presença na ausência e, felizmente, nossa memória é inesgotável e sempre caberão novos cheiros nela. Mesmo se o COVID-19 pode criar uma anosmia (ausência de olfato) temporária, ainda haverá a memória dos cheiros de nossas vidas. E como estamos todos confinados eu aproveito para perguntar para vocês: qual é o cheiro do confinamento? Acho que muitos responderão “o cheiro da minha própria casa”. E o que faz o cheiro da sua casa, já parou pra pensar?

Por isso hoje eu decidi falar um pouco sobre dois perfumes que, para mim, fazem o cheiro da minha casa, quer dizer, de uma casa onde eu vivi durante 17 anos: a casa dos meus pais. E, obviamente, esse cheiro que eu levo em mente é o cheiro do perfume da minha mãe e do meu pai, dois grandes fãs de perfumaria e que, sem querer, acabaram me formando um pouco sobre a minha profissão.

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Azzaro pour homme: e o perfume do meu pai é um grande clássico da perfumaria mundial criado em 1978 para o grupo Clarins que detinha os direitos da marca Azzaro (atualmente a marca Azzaro é propriedade do grupo L’Oreal). Aparentemente, esse perfume está entre os mais complexos que existem com uma fórmula com mais de 100 matérias-primas!

Notas de saída:  manjericão, sálvia, alecrim, menta;
Notas de corpo: aldeídos (efeito sabão; creme para barbear), acorde maçã verde;
Notas de fundo: vetiver, gerânio, musgo de carvalho;

Acqua fresca

Acqua fresca (original): e o perfume da minha mãe não fica para trás! Criado em 1979, apenas um ano mais tarde que o Azzaro pour homme, Acqua Fresca foi a primeira fragrância criada para o grupo O Boticário. E a criação foi certeira: a fragrância esteve entre os perfumes mais vendidos do mundo e ainda circula nos quatro cantos do país.

Notas de saída:  alecrim, terpineol (nota de folha verde);
Notas de corpo: aldeídos, salicilato de benzila (nota floral com cheiro de protetor solar);
Notas de fundo: patchouli, almíscar  (musc branco), baunilha;

E vocês, qual o cheiro do confinamento de cada um de vocês que acompanham o Perfumundo?

Comentem!! Afinal, agora ninguém mais tem a desculpa de não ter tempo para comentar e responder!

Crítica: Black Pepper – Comme des Garçons

Algumas marcas, infelizmente, ainda não ousaram atravessar o oceano e chegar até às prateleiras brasileiras. Talvez por medo do consumidor latino, ultra complexo e grande seguidor dos fenômenos de moda ao detrimento da qualidade; talvez por medo dos impostos brasileiros, um dos mais abusivos do mundo. Comme des Garçons, uma marca criada em 1973 no Japão, se insere nesse grupo que nunca pôs os pés nessa terra chamada Brasil. Mas graças à Internet, um frasco de perfume pode chegar aos 4 cantos do planeta em poucos dias e é por isso que hoje eu decidi contar para vocês um pouco sobre Black Pepper, um perfume Comme des Garçons que sai das normas da perfumaria contemporânea e que encanta pelo cheiro e ousadia.

Comme des Garçons é uma marca de moda conhecida, principalmente, pelos famosos tênis Converse All Star com o desenho de um coração alienígena com olhos esbugalhados. Somente no ano de 1994, com a colaboração do perfumista Mark Buxton, a marca decide lançar uma linha de perfumes começando por uma fragrância portando o nome da própria marca. E o resultado é escandaloso e único: o primeiro frasco, a pedidos da fundadora da marca, foi criado a partir de restos de vidro fundido, o que deu origem ao frasco mais estranho e interessante de todos os tempos. Do lixo ao luxo, Comme des Garçons talvez tenha sido a primeira marca ecológica sem querer.

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Comme des Garçons: frasco estranho e único.

Mas hoje eu decidi falar sobre apenas um dos perfumes deles, o Black Pepper. O que eu sempre admirei nessa marca é a ousadia de se criar notas e acordes que são muito pouco aceitos no mercado mainstream de fragrâncias. Amadeirados e apimentados, todos os perfumes da marca dão espaço à criatividade dos perfumistas sem se conformar com os padrões de venda.

Black Pepper começa com uma nota de pimenta do reino que traz uma sensação picante similar à que uma comida mexicana nos dá; em seguida, uma nota glacial aparece, provocada pela L-carvona, uma matéria-prima com cheiro do chiclete Trident de menta, um clássico no Brasil. Um acorde sutilmente açucarado aparece nas notas de corpo, deixando uma sensação de frescor como a de quando saímos do banho. E com o tempo, a sensação apimentada desaparece e o fundo amadeirado seco (com tonalidades de musgo de carvalho e patchouli) vem envolver as notas de corpo mentoladas e sutilmente doces, lembrando bastante o cheiro de um bom after shave.

E para os que não suportam perfumes ultra concentrados e com um cheiro detectável a metros de distância, Black Pepper é perfeito: o perfume possui uma baixa concentração e todos os seus acordes amadeirados e apimentados são muito discretos e criam uma sensação de intimidade, o que chamamos de “perfume de pele”, ou seja, um perfume que não possui muito volume e que se acomoda bem no corpo. Um ótimo perfume para se usar durante a noite quando o calor diminui e a brisa se instala.

Ano novo, cheiros novos

E o ano de 2019 finalmente acabou! Esse ano cheio de tristezas, greves e problemas políticos fica para trás e o que nos move é a esperança de que 2020 seja mais calmo e cheio de coragem para todos. E esse novo ano que começa nos trará novos cheiros e novidades aqui no Perfumundo!

Quando falo em perfumaria, a maioria das pessoas pensa logo nos clássicos da perfumaria de pele como J’adore, CK one, La vie est belle, entre outros. Mas é preciso saber que a perfumaria não se resume aos perfumes  que passamos na pele. As fragrâncias estão em tudo e fazem parte do nosso cotidiano: no shampoo, na pasta de dente, no detergente, no creme, no sabão em pó, nas velas que decoram as casas e até mesmo no ar das lojas em que entramos.  Por esse motivo, o Perfumundo 2020 também abrirá espaço a todos os tipos de fragrâncias existentes no mercado atual, porque a criatividade dos perfumistas é ainda mais impressionante em um frasco de detergente do que em um frasco de perfume.

E hoje eu começo por um produto nacional tão amado pelos brasileiros: o bom e velho sabonete. Para quem não sabe, o sabonete é feito de nada mais do que gordura e uma base alcalina que é, na maior parte dos casos, a soda cáustica. Aqui na Europa, encontrar um sabonete no supermercado não é uma tarefa fácil. Com o desenvolvimento da indústria química, outras bases alcalinas começaram a ser utilizadas na fabricação do sabão trazendo novas texturas para o mercado. A utilização de potássio ao invés de soda caustica, por exemplo, deu origem ao sabonete liquido, o preferido dos europeus.

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Sabonetes no Brasil: um mercado gigantesco.

E quando estive no Brasil, eu aproveitei para testar os sabonetes da marca Phebo. Eu nunca tinha tido a oportunidade de testar os produtos dessa marca que, fundada em 1930 em Belém do Pará, teve seu conceito de marketing completamente revisto. Além de sabonetes, a marca também vende perfumes, cremes e aromatizadores de ambiente, tudo em uma embalagem simples mas eficaz e atrativa.

E o primeiro sabonete testado foi o “Raiz do oriente“. O Raiz do oriente é um sabonete a base de glicerina, o que dá ao produto um certo efeito de transparência e torna-o menos agressivo para a pele. Em termos de odor, houve uma certa decepção: olhando o nome do sabonete, eu esperava encontrar um misto de cheiro de especiarias orientais (como cominho, pimenta preta e curry) com cheiros amadeirados como patchouli e vetiver. Ao invés disso, deparei-me com um cheiro de aldeído; aquele cheiro quente tipico dos sabonetes da década de 90. Em termos de duração do cheiro, o Raiz do oriente foi exemplar: 2 horas depois do banho, meu braço ainda levava o cheiro do sabonete! Eu aconselho esse tipo de sabonete a todos que não suportam o cheiro super concentrado da maioria dos perfumes de pele disponíveis no mercado atual.

Sabendo que perfumar um sabonete é algo super complicado por conta de todas as reações químicas que se passam entre a soda caustica e o perfume, eu tiro o chapéu à Phebo. Por enquanto, o cheiro deixa a desejar, mas vamos ver o que 2020 reserva a todos os tipos de fragrâncias!

A.I. : a inteligência artificial já é realidade, até mesmo na perfumaria

Estamos em 2001. O mundo sobreviveu ao tão esperado “bug do milênio”. Nada mudou: corrupção, guerras, fome e jogos de futebol; tudo estava lá, intacto. 2001 também foi o ano do lançamento de vários filmes pós-apocalípticos, tais quais “2001: uma odisseia no espaço” e “A.I.: artificial inteligence”. Eu me lembro de ter assistido A.I. e de ter pensado que aquele futuro estava tão distante de mim quanto o fim da faculdade parece distante a um aluno do primeiro ano. Mas hoje em dia, apenas 20 anos depois, a realidade é outra: a realidade é artificial e o artificial é real e controla nosso cotidiano.

Em perfumaria, a história não é diferente. O ano de 2019 marcou o universo das fragrâncias com a criação de um novo funcionário, os algoritmos perfumistas, que criam perfumes de acordo com uma análise estatística sobre os gostos dos clientes. A palavra certa talvez não seja criar, mas a inteligência artificial associa um número incrível de dados em frações de segundos, acelerando o trabalho de criação. Mas a questão é: qual é o papel do perfumista em um universo onde a criação é uma análise estatística e o tempo um luxo?

A boticário não ficou para trás e lançou EGEO ON. A fragrância, dividida em EGEO ON ME e EGEO ON YOU, foi lançada no mês de julho e foi elaborada pelo Phylira, nome dado ao software da empresa Symrise, fabricante desse perfume para a marca Boticário. A ideia era a de que as duas fragrâncias fossem vendidas sem gênero, ultrapassando os preconceitos do mercado atual. Mas o marketing da empresa deixou a desejar pois as cores dos frascos dos dois EGEOS são um tanto quanto sugestivas: o bom e velho rosa e azul da dualidade homem e mulher. Além de tudo, algumas franquias não entenderam o recado, pois continuaram vendendo os perfumes classificando-os em masculino e feminino.

E o Phylira não é o único software com nome engraçado. A sociedade Givaudan trabalha com o Carto, a Firmenich com o D-lab e por aí vai. Mas e os perfumistas, o trabalho deles foi reduzido ao quê? Fica a pergunta. Qual é o papel do trabalho artístico e social do perfumista em uma sociedade onde quase tudo é ou será reduzido a uma complexa atividade estatística?

E em termos de cheiro, o algoritmo deixa a desejar. O EGEO ON ME tem notas frutadas de maracujá, um fundo bem açucarado e um corpo com um acorde de café e anis que lembra bastante o Lolita Lempicka original (aquele frasco azul). Já o EGEO ON YOU tem notas verdes de pinheiro e lavanda, um fundo amadeirado e o mesmo corpo com acorde de café e anis. Sendo bem mais interessante que o seu colega, o EGEO ON YOU traz uma mistura diferente de vários acordes clássicos da perfumaria, e talvez seja o único dos dois que valha a pena ser conferir, mesmo se a impressão de “déjà vu” olfativo fica no ar.

Perfume vegano: o que o mercado tem a oferecer?

Cada vez mais a natureza está no centro das discussões. Manifestações em prol do clima e leis proibindo o descarte excessivo de plásticos no meio ambiente têm sido adotadas no mundo inteiro afim de proteger a única razão pela qual ainda estamos aqui. Afinal, pode parecer bobeira, mas sem rio não há água, sem árvores não há alimento e por aí vai. No mercado da beleza, outras alternativas estão aparecendo para atender aos pedidos da nova geração de clientes atentivos que está nascendo pouco a pouco, e uma delas são os perfumes veganos.

Eu, grande amante da picanha ao ponto, realmente não sabia grande coisa sobre esse tema, mas pesquisei cuidadosamente antes de escrever aqui, pois de besteiras o mundo já está repleto!

Segundo a “The Vegan Society”, um vegano é alguém que “busca excluir, na medida do possível, todas as formas de exploração e de crueldade contra os animais”, sendo esses animais irracionais ou não, ou seja, o veganismo é mais um movimento do que apenas um simples método alimentar. Em termos de alimentos, veganos são vegetarianos estritos, o que significa que todo tipo de produto de origem animal (como carne) ou mesmo derivado de origem animal (ovos e iogurtes, por exemplo) são banidos de suas dietas. Seguindo essa linha, na área da beleza não poderia ser diferente: todo produto cuja origem é animal será banido.

Eu decidi então procurar algumas marcas que respeitam as condições veganas, o que também é uma forma de se manter atualizada sobre o mercado. E é importante lembrar que as grandes empresas de cosméticos já não testam mais nada em animais desde muito tempo atrás! A legislação europeia é clara sobre o assunto e proíbe explicitamente qualquer tipo de teste com animais.

1.The Body Shop
The Body Shop é uma marca inglesa criada na década de 70 e uma das pioneiras em termos de consciência ecológica. Desde o princípio, o objetivo da empresa era vender produtos éticos, sem testes em animais e naturais. The Body Shop foi por anos uma das marcas da L’Oréal, mas a Natura decidiu comprar essa marca e é atualmente a responsável no mundo inteiro pelas franquias.

https://www.thebodyshop.com.br/busca?q=vegan

2.Lolita Lempicka
Lolita Lempicka é também o nome artístico da fundadora desta marca francesa de perfumes e moda. Ela mesmo sendo vegana, a criadora decidiu reformular todos os perfumes da marca para torná-los veganos e, quase, 100% orgânicos.

https://www.ozcosmetics.com.br/Lolita-Lempicka-Le-Premier-Parfum

3.O Boticário
E o Brasil não ficou para trás nessa modernização de conceitos! A ideia de escrever esse artigo surgiu justamente durante uma visita minha ao site do Boticário. Entre as novidades, está uma página inteira dedica a todos os produtos da marca que são veganos! E eles não são poucos! Vale a pena conferir.

https://www.boticario.com.br/produtos-veganos

O mundo evolui, os conceitos mudam e novas formas de expressão surgem. Muito mais do que apenas estar na moda e surfar na onda comercial que cada novo modelo traz consigo , é preciso respeitar e entender as revindicações por trás de cada grupo para se adaptar ao futuro e melhorar o presente, independente de quais sejam nossos próprios ideais.

Body Mist Indian Night Jasmine
Um dos perfumes veganos vendidos nas lojas do The Body Shop

Viagem olfativa à Itália – Parte 2

Espero que, desde o último post, vocês tenham descoberto qual era a flor da última foto, flor cuja fruta nós adoramos no Brasil. E acertou quem disse maracujá! Além do gosto maravilhoso, o maracujá também tem cheiro bom! A flor não é das mais odorantes, então é preciso ficar atento às suas maravilhosas cores se vocês quiserem encontrá-la durante uma trilha.

E continuando essa viagem às Cinque Terre na Itália, eu também vi por lá, face ao mar, figueiras. Infelizmente, ainda estamos em junho e o mês de recolta dos figos é agosto, então não pude experimentar o fruto. De qualquer maneira, as folhas já exalavam esse cheiro cremoso que lembra leite em pó com uma nota verde seca, e, a cada passo, eu encontrava as figueiras seguindo apenas o cheiro como bom cão farejador que me tornei.

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Figueira em fase de crescimento; as folhas têm uma aparência fácil de ser reconhecida.

E por falar em figo, quem acompanha o blog e o nosso instagram (@perfumundo.brasil) já percebeu que o acorde de figo é importante para a perfumaria contemporânea. Eu já fiz uma resenha sobre o Hypnotic Poison (que contém um acorde que fica no meio do caminho entre um figo e um coco) e comentei no instagram sobre o Philosykos da Diptyque, o primeiro perfume que acrescentou esse acorde de figo no mercado de fragrâncias.

Durante uma trilha sofrida de 2h30, eu tive a oportunidade de ver a cidade de Corniglia do alto da montanha e de sentir a flor de “genêt” [fonética: Gnê]. Fui obrigada a deixar o nome francês porque, de acordo com minhas pesquisas, essa flor não existe na América do sul. Ela tem um cheiro de cumarina, matéria-prima encontrada na lavanda, na fava Tonka e no feno. A fava Tonka é nativa da América do Sul e é plantada pelas empresas de perfumaria no Brasil, mas aqui na Europa, essa pepita de ouro é mais conhecida do que em seu próprio berço! Esse cheiro de cumarina é açucarado e lembra o cheiro de amendoim torrado e quase todos os perfumes masculinos têm cumarina em sua composição em nota de fundo. O genêt é usado sob a forma de um Absolue (extrato alcoólico) em perfumaria, misturando um cheiro floral ao fundo de cumarina.

Genêt
Genêt, a flor sem tradução.

E a última planta dessa viagem estava no chão e quase passou despercebida. Ela tem a aparência de um erva daninha mas, uma vez embaixo do meu nariz, a história foi outra. O nome dessa plantinha é anis, mas no Brasil eu sempre conheci pelo nome de erva-doce. Ela é frequentemente usada na cozinha, principalmente na preparação de chás, e é o ingrediente principal da bebida típica do sul da França, o pastis. O anis tem um cheiro doce mas sem ter um efeito abaunilhado, uma nota floral anestesiante (mesma sensação que o cravo) e super medicinal do tipo cânfora.

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Erva-doce ou anis.

E assim termina-se essa viagem ao paraíso olfativo italiano.  Mas o verão acabou de começar na Europa e outras viagens cheias de cheiros bons virão! Até lá, o Perfumundo continua porque a perfumaria é um universo de infinitas possibilidades.

Viagem olfativa à Itália – parte 1

E como tudo que é bom acaba um dia, aqui estou eu de volta à França depois desse final de semana no paraíso olfativo italiano. Então essa edição especial de hoje vai ser para contar um pouco dessa viagem ao país do limão.

Para os que não viram as fotos no instagram, eu viajei à região das “Cinque terre”. Cinque porque são cinco cidades costeiras da Riviera Italiana que viraram patrimônio mundial da Unesco em 1997: Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore são os nomes dessas cinco maravilhas. Que seja pelas cores das casas e da natureza, ou pelos cheiros de flor e fruta que invadem as ruas dessas cidades, a viagem vale extremamente a pena se vocês estiverem passando pela Itália. Mas atenção aos alérgicos ao esporte: todas as vilas são construídas na montanha, então haja pernas para subir as ladeiras dessa vida!

O primeiro cheiro que me invadiu foi o do jasmin. Planta não nativa do local, são os próprios moradores que rechearam seus jardins e muros com essa flor tão pequena mas tão odorante. Se eu tentasse decompor o cheiro do jasmin em vários outros mais simples (um trabalho contínuo em perfumaria e que ajuda a memorizar a construção de acordes), eu citaria o cheiro de banana madura, com o cheiro suculento do suco de pêssego e, no caso do jasmin das cinque terre, misturado ao frescor do limão. Vale a pena ressaltar que esse jasmin é o “étoilé”, o jasmin “falso”, que cresce no sul da França e na Itália, regiões de clima ameno.

jasmin étoilé
Jasmin “étoilé” e seu cheiro inesquecível

O segundo cheiro foi o da mexerica. Sou uma grande fã de frutas cítricas, então não serei imparcial: eu peguei uma folha da árvore e quebrei-a ao meio e fiquei surpresa com a beleza do cheiro que apareceu! Poucas são as plantas cuja folha é odorante e, em perfumaria, as folhas do mexeriqueiro são usadas pelos perfumistas em forma de óleo essencial conhecido pelo nome de Petit grain de mexerica. Um cheiro verde, de grama cortada, com a acidez e frescor do limão, uma nota de flor branca suave como o cheiro da flor de laranjeira e um efeito que lembra o cheiro de sabonete (efeito dos aldeídos).

mexerica
As mexericas crescem nas ruas da cidade de Levanto (cidade vizinha às cinque terre)

Eu eu termino com essa flor linda e cheirosa, que eu deixo vocês adivinharem o que é! Enquanto ela é flor, o seu cheiro é alaranjado, compacto, ácido, e lembra bastante o cheiro da madressilva (honeysuckle). Essa da foto é a espécie ornamental frequente na Europa, mas a prima dela, chamada Passiflora edulis, é originária do Brasil e todo mundo ama a fruta que nasce dessa flor, seja em forma de suco ou mesmo com um pouco de açúcar!

Passiflore
Qual o seu nome, oh bela flor?

E por enquanto é isso, e já é bastante! No próximo artigo vocês terão a continuação dessa viagem olfativa extraordinária. Ciao ragazzi!

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O cansaço me matou

Crítica: Dior homme EDT

Parece que quinta-feira é o melhor dia para escrever algo na internet, então resolvi testar. Na terça-feira eu postei um artigo sobre o Hypnotic Poison da Dior e hoje eu vou fazer um resenha sobre um outro clássico da Dior, o Dior Homme Eau de toilette. Vocês provavelmente estão pensando que eu recebo patrocínio da Dior para escrever sobre eles o tempo todo, mas não se enganem! Eu ainda não ganhei nenhum centavo e nem frascos vazios de patrocinador, mas fico aguardando as propostas (meu telefone está nos comentários, Dior)!

O Dior Homme foi o primeiro perfume eponímico da marca. Ele foi criado sob a direção artística de Hedi Slimane, um fotógrafo e designer francês que também foi diretor artístico da Yves Saint-Laurent e, atualmente, da marca Celine. Criado em 2005, esse perfume, quase dez anos depois, foi uma tentativa de CKone ao contrário. Enquanto o CKone foi criado com o intuito de ser um perfume unisex, o Dior Homme trouxe uma nota de feminilidade aos perfumes masculinos, introduzindo pela primeira vez um acorde floral em um perfume destinado ao público masculino. E o resultado foi surpreendente: os machistas não entenderam que era uma flor e adoraram, e os progressistas entenderam que era uma flor e também adoraram e todos viveram felizes para sempre! No meu mundo ideal, todos viveram felizes para sempre, mas o que é certo é que o Dior Homme foi um sucesso de vendas e ainda é.

As primeiras notas que aparecem são um misto de lavanda e madeira, como o cheiro exalado por uma caixa coberta de veludo no interior;  o cheiro de cânfora da lavanda encontra o cheiro verde e explosivo do dihydromyrcenol (matéria-prima sintética); no corpo do perfume o cheiro de íris entra em cena e engloba tudo criando uma textura em torno do cheiro, um acorde que nos deixa viciados e nos faz retornar para sentir de novo; nas notas de fundo podemos sentir a baunilha e o cravo, que criam uma sensação da presença de um acorde chocolate.
o Dior Homme contém uma boa dose de íris, matéria-prima mais cara da perfumaria e que já foi citada aqui em outro post, e é por isso que o seu preço é um tanto quanto salgado.

O perfumista por trás de Dior Homme é Olivier Polge, atual perfumista exclusivo da Chanel. O cargo atual foi uma herança de pai para filho (seu pai, Jacques Polge, era até então perfumista exclusivo da Chanel), pois a perfumaria ainda age como uma aristocracia reservada a poucos…mas Dior Homme EDT marcou a carreira do Polge filho e mostrou do que ele era capaz.

Nome: Dior Homme Eau de Toilette (EDT)
Preço: R$365,00
Onde encontrar: Sephora Brasil (https://www.sephora.com.br/dior/perfumes/masculino/dior-homme-masculino-eau-de-toilette-3231)

 

 

Crítica: Hypnotic poison (DIOR)

Dia dos namorados chegando, uma ótima razão para ir procurar a felicidade da sua outra metade na perfumaria mais próxima de você! E se você não gosta de bolacha trakinas, também não tem problema, o perfume está aí para te fazer companhia em todos os momentos da sua vida: os tristes, os felizes, os bem ou mal humorados,os frios e os quentes. E por falar em meteorologia, pelo que tudo indica, o que os brasileiros chamam de inverno está chegando, então é por isso que hoje eu vou falar sobre um perfume adaptado aos dias de frio, o Hypnotic Poison da DIOR.

Eu não gosto da palavra crítica. Acho que toda crítica exige logo em seguida uma proposta afim de torná-la construtiva. E como em matéria de arte e perfume eu acredito que o cheiro é uma interpretação livre do pensamento concreto ou abstrato de um artista (nesse caso o artista é o perfumista), não acho que criticar seja algo útil. Então aqui no Perfumundo eu falarei sobre perfumes que eu penso que fazem a diferença, olfativamente falando, nesse mercado atual saturado de lançamentos.

Para quem não sabe, Hypnotic Poison é o herdeiro direto de um perfume cujo cheiro invadiu os vagões de muitos metrôs na década de 80. Acertou quem disse Poison! Uma nota remanescente de Jaboticaba com um imenso volume e um acorde tão suculento quanto um suco fresco, esse era o Poison que encantou uma geração inteira. Mas o tempo passou e esse perfume foi perdendo a simpatia do público, a Dior teve então a ideia de lançar o que nós chamamos de “Flanker“. O Flanker é um nova interpretação de um perfume que teve sucesso mas que, por diversas razões, não agrada mais ou agrada menos às pessoas. Um bom exemplo é o do CK one, que já ganhou resenha aqui no blog. Ele foi declinado em CK be, CK shock, CK summer e por aí vai, a lista é longa e eu preciso continuar esse texto! O Poison deu a luz ao Hypnotic Poison em 1998, mas é só no meio dos anos 2000 que o perfume começou a chamar a atenção. A responsável por essa criança é a perfumista Annick Menardo, uma especialista em criar sucessos, pois ela também é a criadora do Lolita Lempicka original.

Hypnotic Poison começa com uma nota de saída um tanto quanto ácida e amarga lembrando o cheiro da toranja; em seguida, notas verdes e secas aparecem e o acorde central de coco ralado e baunilha surge, lembrando bastante as balas de coco que encontrávamos nos aniversários de criança. Essa nota de coco ralado também acaba lembrando o gosto de um figo bem maduro, e o acorde central é carregado por um fundo amadeirado e acompanhado de anis. A razão pela qual eu indico esse perfume para o inverno é o efeito desse acorde central de coco e baunilha: o cheiro adocicado provoca uma sensação de conforto, como a sensação de um casaco de lã ou de um cobertor. Durante o verão, esse cheiro pode virar sufocante, mas durante o inverno ele se desenvolverá perfeitamente.

Mas como todo perfume, o próximo passo antes de comprar é testá-lo na pele, pois cada tipo de pele faz o perfume se desenvolver de uma maneira diferente. Um perfume comprado só pelo cheiro das notas de saída pode virar uma decepção. Então passem o tempo que for necessário sentindo, não há melhor terapia!

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Comendo um frasco de Hypnotic Poison e tirando a barriga da miséria

Perfume e alergias: a verdade coça

Quando eu nasci, nada me afetava. Não havia pólen nem substância química que me atingisse; eu me sentia invencível. Mas mesmo Clark Kent um dia encontra a Kriptonita, e aos 17 anos eu comecei a encontrar várias. Coceira atrás de coceira, olhos vermelhos, nariz entupido, garganta inchada e falta de ar, todos os sintomas com os quais um alérgico vive todos os dias. Graças ao químicos (aqueles que conseguiram ingressar em uma faculdade pública brasileira antes da extinção das mesmas…), nós vamos sobrevivendo com uma caixa de anti-histamínico.

Mas e os perfumes? Eles realmente causam alergia? Entre realidade e lenda urbana, às vezes a verdade dói…e coça.

Na Europa, a regulamentação de produtos cosméticos (perfumes inclusos) é rígida. Uma lista de 26 substâncias alérgicas aponta os nomes que devem figurar no rótulo do produto se a fórmula do perfume as contém. Um bom exemplo é o da indústria alimentícia. Se você decide vender tapioca com banana, e que o governo brasileiro considera banana como sendo uma substância alérgica, você será obrigado a escrever “banana” no rótulo do seu produto na parte “composição”. Com um perfume é a mesma coisa.

 

Uma nomenclatura internacional chamada INCI (International Nomenclature of Cosmetics Ingredients) é utilizada no mundo inteiro afim de facilitar o reconhecimento das substâncias químicas em qualquer canto do planeta. Muitas substâncias possuem vários nomes, o álcool sendo o melhor exemplo. Também chamado de etanol, para os íntimos, o álcool é conhecido como etan-1-ol. O INCI veio então resolver esse problema e colocar ordem no barraco.

E então um perfume pode causar alergia? E a resposta é sim, tecnicamente um perfume pode ser a causa de uma alergia. Mas é importante saber que nós somos alérgicos a CERTAS substâncias e não a uma fórmula inteira de perfume. Eu mesma, trabalhando em perfumaria, já percebi que várias substâncias me provocam uma alergia. No entanto, eu não abandonaria meu trabalho querido por causa de uma urticária, do mesmo jeito que não falaria aos consumidores “nunca mais use um perfume pois ele provoca alergia”. Que seja em política ou na vida cotidiana, radicalismo não leva a lugar nenhum!

Em caso de alergia, troquem de perfume e fiquem atento aos rótulos e às substâncias que poderiam ser a causa dessa alergia. Lembrem-se de que o ar de São Paulo é 10 vezes mais perigoso e susceptível de causar uma alergia do que 10 litros de perfume…

Qualquer dúvida ou curiosidade, deixem seus comentários!