Crítica: Black Pepper – Comme des Garçons

Algumas marcas, infelizmente, ainda não ousaram atravessar o oceano e chegar até às prateleiras brasileiras. Talvez por medo do consumidor latino, ultra complexo e grande seguidor dos fenômenos de moda ao detrimento da qualidade; talvez por medo dos impostos brasileiros, um dos mais abusivos do mundo. Comme des Garçons, uma marca criada em 1973 no Japão, se insere nesse grupo que nunca pôs os pés nessa terra chamada Brasil. Mas graças à Internet, um frasco de perfume pode chegar aos 4 cantos do planeta em poucos dias e é por isso que hoje eu decidi contar para vocês um pouco sobre Black Pepper, um perfume Comme des Garçons que sai das normas da perfumaria contemporânea e que encanta pelo cheiro e ousadia.

Comme des Garçons é uma marca de moda conhecida, principalmente, pelos famosos tênis Converse All Star com o desenho de um coração alienígena com olhos esbugalhados. Somente no ano de 1994, com a colaboração do perfumista Mark Buxton, a marca decide lançar uma linha de perfumes começando por uma fragrância portando o nome da própria marca. E o resultado é escandaloso e único: o primeiro frasco, a pedidos da fundadora da marca, foi criado a partir de restos de vidro fundido, o que deu origem ao frasco mais estranho e interessante de todos os tempos. Do lixo ao luxo, Comme des Garçons talvez tenha sido a primeira marca ecológica sem querer.

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Comme des Garçons: frasco estranho e único.

Mas hoje eu decidi falar sobre apenas um dos perfumes deles, o Black Pepper. O que eu sempre admirei nessa marca é a ousadia de se criar notas e acordes que são muito pouco aceitos no mercado mainstream de fragrâncias. Amadeirados e apimentados, todos os perfumes da marca dão espaço à criatividade dos perfumistas sem se conformar com os padrões de venda.

Black Pepper começa com uma nota de pimenta do reino que traz uma sensação picante similar à que uma comida mexicana nos dá; em seguida, uma nota glacial aparece, provocada pela L-carvona, uma matéria-prima com cheiro do chiclete Trident de menta, um clássico no Brasil. Um acorde sutilmente açucarado aparece nas notas de corpo, deixando uma sensação de frescor como a de quando saímos do banho. E com o tempo, a sensação apimentada desaparece e o fundo amadeirado seco (com tonalidades de musgo de carvalho e patchouli) vem envolver as notas de corpo mentoladas e sutilmente doces, lembrando bastante o cheiro de um bom after shave.

E para os que não suportam perfumes ultra concentrados e com um cheiro detectável a metros de distância, Black Pepper é perfeito: o perfume possui uma baixa concentração e todos os seus acordes amadeirados e apimentados são muito discretos e criam uma sensação de intimidade, o que chamamos de “perfume de pele”, ou seja, um perfume que não possui muito volume e que se acomoda bem no corpo. Um ótimo perfume para se usar durante a noite quando o calor diminui e a brisa se instala.

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