A.I. : a inteligência artificial já é realidade, até mesmo na perfumaria

Estamos em 2001. O mundo sobreviveu ao tão esperado “bug do milênio”. Nada mudou: corrupção, guerras, fome e jogos de futebol; tudo estava lá, intacto. 2001 também foi o ano do lançamento de vários filmes pós-apocalípticos, tais quais “2001: uma odisseia no espaço” e “A.I.: artificial inteligence”. Eu me lembro de ter assistido A.I. e de ter pensado que aquele futuro estava tão distante de mim quanto o fim da faculdade parece distante a um aluno do primeiro ano. Mas hoje em dia, apenas 20 anos depois, a realidade é outra: a realidade é artificial e o artificial é real e controla nosso cotidiano.

Em perfumaria, a história não é diferente. O ano de 2019 marcou o universo das fragrâncias com a criação de um novo funcionário, os algoritmos perfumistas, que criam perfumes de acordo com uma análise estatística sobre os gostos dos clientes. A palavra certa talvez não seja criar, mas a inteligência artificial associa um número incrível de dados em frações de segundos, acelerando o trabalho de criação. Mas a questão é: qual é o papel do perfumista em um universo onde a criação é uma análise estatística e o tempo um luxo?

A boticário não ficou para trás e lançou EGEO ON. A fragrância, dividida em EGEO ON ME e EGEO ON YOU, foi lançada no mês de julho e foi elaborada pelo Phylira, nome dado ao software da empresa Symrise, fabricante desse perfume para a marca Boticário. A ideia era a de que as duas fragrâncias fossem vendidas sem gênero, ultrapassando os preconceitos do mercado atual. Mas o marketing da empresa deixou a desejar pois as cores dos frascos dos dois EGEOS são um tanto quanto sugestivas: o bom e velho rosa e azul da dualidade homem e mulher. Além de tudo, algumas franquias não entenderam o recado, pois continuaram vendendo os perfumes classificando-os em masculino e feminino.

E o Phylira não é o único software com nome engraçado. A sociedade Givaudan trabalha com o Carto, a Firmenich com o D-lab e por aí vai. Mas e os perfumistas, o trabalho deles foi reduzido ao quê? Fica a pergunta. Qual é o papel do trabalho artístico e social do perfumista em uma sociedade onde quase tudo é ou será reduzido a uma complexa atividade estatística?

E em termos de cheiro, o algoritmo deixa a desejar. O EGEO ON ME tem notas frutadas de maracujá, um fundo bem açucarado e um corpo com um acorde de café e anis que lembra bastante o Lolita Lempicka original (aquele frasco azul). Já o EGEO ON YOU tem notas verdes de pinheiro e lavanda, um fundo amadeirado e o mesmo corpo com acorde de café e anis. Sendo bem mais interessante que o seu colega, o EGEO ON YOU traz uma mistura diferente de vários acordes clássicos da perfumaria, e talvez seja o único dos dois que valha a pena ser conferir, mesmo se a impressão de “déjà vu” olfativo fica no ar.