Exposição suíça “Nez à nez. Contemporary perfumers”

Quinta-feira foi dia de atravessar a fronteira e visitar a Suíça, um país que lembra muito o Brasil (obviamente, um Brasil sem desvios de verba e paraíso fiscal). Suíça: país riquíssimo, sede da ONU, onde a garrafa de água custa mais caro que ouro e extremamente…feio. Pois é, nunca imaginaria que um dos países mais multiculturais do mundo pudesse ser tão abandonado em termos de arquitetura.
Mas para toda regra há uma exceção, e eu fui conhecê-la: a cidade de Lausanne, que abriga atualmente no MUDAC (museu de design) a exposição “Nez à nez. Contemporary perfumers”, que o Perfumundo foi conferir. E porque nesse dia os ventos sopravam ao meu favor, tive a oportunidade de conversar com Maurice Roucel e Marc-Antoine Corticchiato, dois perfumistas franceses criadores de sucessos como “L’instant” e “Insolence” (Guerlain). Durante uma hora, um debate deu aos dois a oportunidade de contar um pouco das suas respectivas trajetórias no universo do perfume.

Maurice Roucel nasceu e cresceu na Normandia, uma região francesa onde o único perfume era o cheiro do mar e da chuva, mas, após um bacharelado em química analítica e uma oportunidade de trabalhar nos laboratórios de Chanel, ele apaixonou-se pelo universo olfativo e consagrou uma vida inteira ao perfume. Nesse planeta chamado perfumaria, as dificuldades são inúmeras: toda a criatividade artística é condicionada aos pedidos de um cliente, nesse caso, uma marca de perfumes. Ele citou alguns exemplos, como a marca Serge Lutens, que pediu a ele um perfume com “cheiro de íris misturado ao cheiro de lama”. Desse pedido estranho, ele criou o maravilhoso Iris Silver Mist, que eu já tive a oportunidade de descrever aqui no blog.

No caso de Marc-Antoine Corticchiato, a história é outra. Químico doutor em análise química e especialista em plantas que emitem perfumes, foi muito mais tarde que ele decidiu seguir carreira na perfumaria. Um dia a vontade de chutar o pau da barraca veio com tanta força que ele voltou à faculdade e ingressou na ISIPCA (mesmo instituto onde eu fiz meus estudos de mestrado especializado em perfumaria). Uma vez formado, ele juntou os trocados do bolso e fundou a própria empresa chamada “Parfum d’empire”. Diferentemente de Maurice Roucel, Marc-Antoine não trabalha para marcas e é portanto seu próprio cliente e patrão, o que torna a criação mais livre. Apesar disso, ele afirma que a tortura é ainda pior: “com tanta liberdade criativa e trabalhando sozinho, nunca sei quando parar e aceitar uma fórmula final. A minha vontade é de modificá-la eternamente”.

Personalidades a parte, o único traço em comum entre esses dois perfumistas era o perfeccionismo. Ambos dedicaram anos e anos a algumas de suas fórmulas, sempre na busca idealista de alcançar, um dia, a perfeição. Mas como em toda arte, a perfeição está longe de ser alcançada, e ainda bem! Afinal, se a arte não fosse essa busca incessante do inalcançável, talvez Caravaggio e Dalí não tivessem tido uma razão para viver…

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