Talvez seja o fato de que o sexo, ou todo tema relacionado ao sexo, sejam tabus na sociedade, mas o tal do almíscar parece ser o assunto de perfumaria mais conhecido do mundo! Então é hora de colocar os pingos nos “i”.
A palavra almíscar, do persa mushk, é o nome dado a um extrato de odor característico obtido a partir de uma glândula sexual dos cervos do himalaia (Moschus moschiferus) e também obtido a partir de algumas plantas. Esse extrato – que possui um cheiro que eu descreveria como lembrando o feno e um queijo bem forte e gorduroso – era então usado como nota de fundo em perfumes do século passado. Mas os anos passaram e o mundo descobriu que matar um animal apenas com o intuito de alimentar o mercado da perfumaria e de aromas alimentares era algo absurdo, então o uso de almíscar passou a ser proibido em perfumaria. Por isso, a próxima vez que alguém falar “meu perfume não dura muito, deve ter pouco almíscar”, vocês poderão explicar que obviamente que ele tem pouco almíscar ou até mesmo nenhum almíscar!
Mas ao mesmo tempo em que a proibição apareceu, a química orgânica, em pleno desenvolvimento, descobriu a estrutura do almíscar e começou a sintetizar moléculas equivalentes, na esperança de recriar algo que a natureza nos havia fornecido. Esse “almíscar sintético” foi então chamado pelos perfumistas de “almíscar branco”, pois essas moléculas foram muito utilizadas na fabricação de perfumes para amaciantes e sabões em pó, criando a sensação de que seu cheiro era “limpo” e branco como algodão.
E qual a relação entre o almíscar branco e a fixação de um perfume? Quanto maior uma molécula é, mais tempo ela demorará para se evaporar. Em uma mistura de essências tal qual um perfume, o acréscimo de moléculas desse tipo aumentaria o tempo de duração de um perfume. Mas muitos perfumistas afirmam que moléculas desse tipo perturbariam o tempo de evaporação do perfume, pois aumentariam apenas as notas de fundo e deixariam o cliente com a impressão de que o cheiro de seu perfume favorito “não é mais o mesmo”. Várias vezes pessoas vieram comentar comigo esse tipo de desapontamento, então talvez Edmond Roudnistka (grande perfumista criador de Eau sauvage e outros clássicos) tivesse razão sobre os ditos fixadores.
O que é certo é que o almíscar retirado da glândula sexual do cervo não é mais usado em perfumaria. Afinal, em tempos de escassez de recursos, todo esforço para preservar o que resta é ainda muito pouco! E uma perfumaria consciente é uma perfumaria que sabe criar e continuar inovando apesar dos esforços de adaptação que a vida impõe.