Mas afinal, o que é um “óleo essencial”?

Óleo essencial de laranja, bergamota, lavanda…mas afinal, o que é o tal do óleo essencial? O post de hoje é uma mistura de química e perfumaria, pois, mesmo se um perfume precisa de uma boa dose de criatividade, ele também precisa de uma sábia dose de química!

A definição exata de um óleo essencial é a seguinte: produto obtido por um processo físico de separação, tais quais destilação e hidrodestilação, e/ou obtido por processo mecânico, tal qual a “expressão a frio”. Bom, ler uma frase é fácil, o difícil é entender o que ela quer dizer! Existem então duas formas de obter-se algo que pode ser chamado de óleo essencial:

– por meio do que se chama “expressão a frio” (apenas no caso das frutas cítricas: laranja, limão, bergamota, etc)
– por meio de destilação ou destilação por arraste de vapor da matéria-prima, seja qual for o tipo de matéria (flor, fruto, folha, raíz, etc)

A “expressão a frio” nada mais é do que o ato de raspar a casca de uma fruta cítrica, local onde encontram-se as glândulas contendo o cheiro do fruto, com uma máquina chamada “pelatrice”. Uma outra máquina, chamada “sfumatrice”, é capaz de raspar a casca e espremer o fruto, originando dois produtos diferentes, um destinado à perfumaria (o óleo essencial) e o outro destinado à indústria agro-alimentar (o suco).

A destilação, grande incompreendida dos inimigos da química, é o simples ato de usar os estados físicos da matéria (vapor e líquido nesse caso) a nosso favor. O mecanismo é simples: você mistura água com, por exemplo, um pouco de cravo; você esquenta tudo até atingir 100°C (temperatura em que a água vira vapor) e depois coloca algo frio em contato com esse vapor. Esse choque térmico vai fazer com que a água volte ao estado líquido (exatamente como na sua panela de arroz que você esqueceu no fogo enquanto lê isso), mas ela terá levado consigo as moléculas odorantes do cravo; e assim nasce o óleo essencial!
A destilação por arraste de vapor é o mesmo processo, mas dessa vez a água não entra em contato com a matéria-prima antes de passar ao estado de vapor. Essa técnica garante uma melhoria de rendimento, visto que a matéria-prima não se colará entre ela como no caso de uma destilação simples.

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Íris, a matéria-prima mais cara da perfumaria

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Não se enganem caros leitores: a matéria-prima mais cara da perfumaria não é extraída de uma flor! Da flor denominada íris, apenas seus rizomas darão origem à essência mais cara da perfumaria mundial.

Para os que já esqueceram das aulas de botânica, rizoma é o nome que se dá a uma raíz que cresce horizontalmente e que tem a capacidade de armazenar substâncias nutritivas para a planta. O rizoma, para simplificar, é um caule modificado em forma de raíz. Uma vez destilado (explicarei em detalhes uma destilação no próximo artigo), o rizoma dá origem ao que chamamos “beurre d’iris” (em português, “manteiga de íris”) por causa de sua consistência sólida e cor amarela que lembram um bloco de manteiga. E o preço dessa manteiga é bem salgado: entre 10000 e 15000 euros o Kg (em torno de 40000 e 60000 reais o Kg).

Mas, nesse caso, o preço se explica: a destilação demora 30h e o rendimento é de apenas 2 para 1000! O que significa que é preciso 1Kg de rizoma para obter-se míseros 2g de “manteiga”. Além disso, o íris é uma planta de cultivo longo e apenas 3 anos depois do plantio o rizoma poderá ser colhido. Em seguida, ainda são necessários mais 3 anos de secagem do rizoma, pois o delicioso cheiro de violeta do íris só aparece depois que os mesmos já estão secos e envelhecidos. Para os impacientes, o meu conselho é que comecem a plantar seus íris já! (mas antes terminem de ler o artigo)

Existem 3 variedades botânicas de íris que são usadas na perfumaria: a germanica, a florentina e a pallida. A primeira é cultivada principalmente no Marrocos, as duas outras na Itália. Os agricultores italianos costumam plantar o íris aos pés das vinhas ou das oliveiras, a combinação perfeita do que há de melhor nesse país.

Se eu devesse citar 2 perfumes que contém uma boa dose de íris, eu citaria sem hesitação Iris Silver Mist (Serge Lutens) e 28 La pausa (Exclusif de Chanel). Esses dois perfumes provavelmente não são encontrados no Brasil (infelizmente…), mas eu os descreveria como a brisa de ar frio e fresco que emana de um carro novo com bancos de couro. Pode parecer loucura, mas cheiros também têm uma textura e, com a sua incrível textura de algodão, eu diria que a essência de íris é a própria encarnação da sensação de conforto.

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