Cheiro no ar: Chanel n°5

Senta que lá vem história! O artigo de hoje, como muitos dos que serão publicados aqui no futuro sob o nome de “cheiro no ar”, vai contar a história por trás da criação de um perfume. Nada melhor do que começar contando o nascimento de um perfume que virou um mito: o Chanel N°5.

Gabrielle Chanel, além de revolucionária de vanguarda, era provavelmente a mulher mais supersticiosa do mundo, e a superstição em torno dos números era uma especialidade dessa estilista do século XX.

O Chanel N°5, com suas notas de corpo florais de rosa, ylang, jasmim e aldeídos (matéria-prima que confere ao perfume um cheiro de sabonete e de talco de bebê), foi criado por um Russo exilado na França, um senhor chamado Ernest Beaux. Reza a lenda que madame Chanel pediu a Ernest que ele criasse um perfume impossível de ser copiado (coitada, ela ainda não sabia que anos depois inventariam a análise química e que nenhum perfume estaria imune às cópias clandestinas…). E é aí que duas versões diferentes de uma mesma história aparecem:

1°: Ernest teria colocado no perfume uma alta dose de aldeídos, matérias-primas pouco utilizadas na época, afim de criar um perfume único

2°: A assistente de Ernest teria errado na hora de pesar sua fórmula e teria acrescentado muito mais aldeídos do que o desejado, criando então o Chanel N°5 que todos conhecemos

Na hora da escolha, Ernest Beaux numerou os perfumes de acordo com o número de suas tentativas. Chanel sentiu todos, e entre eles estava também a tentativa de número 19 (que mais tarde daria origem ao N°19, um belo perfume da família chypre-verde), que foi rejeitada quando Gabrielle sentiu a tentativa de número 5. Na hora de escolher o nome do novo perfume, Chanel seguiu novamente a estrada da superstição e decidiu  batizá-lo com o simples nome de N°5, pois ela o lançaria no mês de maio, o 5° mês do ano.

E como eu sei que muita gente não gosta do Chanel N°5, porém eu lhes aconselho a senti-lo novamente, mas desta vez pensando na história de sua criação ao mesmo tempo. Garanto-lhes que o cheiro dele será outro!

chanel n°5 flacon

Pirâmide olfativa: a construção de um perfume

Não sei bem o porquê, mas uma boa parte das ideologias e estruturas da sociedade são sempre apresentadas em forma de pirâmide. A pirâmide hierárquica do mundo do trabalho, as pirâmides que aproximavam os faraós egípcios da vida eterna…mas hoje falarei de uma cuja existência é raramente divulgada: a pirâmide olfativa.

O princípio é simples e envolve a noção de notas que, juntas, formarão um acorde. O perfumista então trabalha exatamente como o músico, que associa notas em busca de um acorde harmonioso. Existem 3 tipos de notas: as notas de saída (notes de tête), as notas de corpo (notes de cœur) e as notas de fundo (notes de fond).

O tipo de nota é diretamente proporcional ao tempo de evaporação de uma matéria prima: quanto mais volátil (nome dado à capacidade de uma substância a se evaporar) essa matéria for, ou seja, quanto menos tempo o cheiro dela durar, mais ela será considerada como nota de saída. Outro fator é o tempo de duração do cheiro uma vez misturado a outras matérias-primas. Mas esse fator mais complexo deixaremos para um próximo artigo. Lembrando que uma nota que dura menos tempo no corpo, será a primeira a se evaporar, sendo portanto a primeira a ser sentida quando espirramos o perfume no corpo; é a nota de saída que conquistará o cliente pelo seu “cheiro à primeira vista”!

A partir disso, vocês podem concluir que as notas de corpo são as que têm uma duração mediana e as de fundo são as últimas a desaparecerem. Existe uma relação entre notas de fundo e a grande lenda urbana do almíscar fixador. Dedicarei um artigo apenas ao tema do almíscar , pois essa é uma das perguntas que mais ouço e, sejamos honestos, muita besteira já foi dita e redita sobre esse assunto.

Para terminar esse artigo com uma boa estrutura (algo que todo perfume que se preza deve ter), vou citar alguns exemplos de matéria-prima em cada tipo de classe:

– notas de saída: bergamota, limão, laranja, acetato de hexila (cheiro de maçã)
– notas de corpo: jasmim, rosa, manjericão, flor de laranjeira
– notas de fundo: musgo de carvalho, patchouli, almíscares artificiais

Agora vocês poderão concluir por qual razão as primeiras notas de um perfume, na grande maioria das vezes, nos dão uma sensação de frescor cítrica!
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Perfume de mulher…de mulher?

Gostaria que o primeiro artigo deste blog destinado a desmistificar o mundo da perfumaria pudesse quebrar um antigo tabu, um que ouço constantemente não importa em qual país eu esteja. França, Brasil, a pergunta é sempre a mesma: esse perfume/cheiro é de mulher? Esse perfume/cheiro é de homem? Então vamos lá.

Perfumistas têm ao seu alcance um número quase inesgotável de matérias-primas. Um perfume contém em média de 18 a 100 matérias-primas, e algumas antigas fórmulas de perfume podiam contar com até 300 matérias-primas de todos os tipos. Vocês podem imaginar que para chegar nesse cheiro agradável que você espirra sobre os punhos, nas roupas e pescoço, alguém antes teve que suar muito! A criação de um perfume é o que chamamos de “formulação” e, como uma receita de cozinha, a fórmula indica o porcentagem de cada ingrediente que o perfumista adiciona à sua criação. Existem também o que nós chamamos de “bases”, mas esse assunto tratarei em um futuro próximo.

A perfumaria funciona como a moda e vive de seguir tendências. Quando aprendemos as matérias-primas que podemos utilizar para compor um perfume, já nos ensinam em quais perfumes essas já foram utilizadas, com qual intuito e o público ao qual se destinou o perfume em questão. Talvez esteja aí o maior atentado que pode existir à criatividade. E é acostumando o público à existência de uma perfumaria de “gênero” que o mercado fecha aos consumidores a oportunidade de lhes proporcionar o que o universo olfativo tem de melhor: o encantamento da eterna descoberta.

Por isso, a próxima vez que vocês saírem em busca de um novo perfume, procurem em todas as prateleiras, independente do que as placas e propagandas lhes dirão, pois o seu próximo perfume pode estar na prateleira em que você nunca olha.